para dentro da minha mala de viagem, é encontrar parte, ou melhor, uma grande parte do meu ser. Ainda há muito pouco tempo, não prescisaria mais do que uma muda de roupa,uma escova de dentes e um livro, para um fim de semana fora de casa. Agora a minha mala está tão cheia que mal a consigo fechar. E não são coisas inúteis. Preciso de tudo e tudo é pouco. Além dos óculos de sol, levo os óculos graduados, não é que veja mal, mas receio noites mal dormidas e estes sempre me ajudam a não lacrimejar. No que diz respeito ao meu sector piloso, levo o champô para cabelos ondulados, o amaciador para cabelos rebeldes, as gotas para formar o caracol, a espuma para os dias de chuva, e a máscara nutritiva semanal. Ah!e a máquina para aqueles pêlos indesejáveis que aparecem quando e onde não devem. A pele, este é um sector delicado, pois nem é seca nem é oleosa, é sensivel. Preciso do creme de dia, creme de noite, esfoliante, calmante, o gel de limpeza e o roll-on para as olheiras, usados num ritual diário e sem interrupções, pois qualquer distração pode alterar a ordem e seria o suficiente para me estragar o resto do dia. E o corpo: gel de banho ph neutro, creme hidratante para as mãos, pouca coisa. E a boca! sempre de baton de cieiro, problema de lábios grandes é que parece que secam mais que os outros, pasta de dentes branqueadora, antiséptico bucal e fio dental para os dentes que ainda são meus. Nao posso esquecer os lenços de papel, resmas, há sempre casas de banho que não estão devidamente equipadas. Para terminar, a secção medicinal, vitamina C para os resfriados, magnésio para as cãimbras, omeprazole para o estômago, alka seltzer para a bebida (já não tenho a mesma resistência), aspirina para tudo, diclofenac para as contracturas musculares, aerius para as alergias, valeriana para domir e guaraná com cafeína para acordar. E creio que com isto acabei.
Podia ser pior, podia ter de levar, por exemplo: lentes de contacto, a caixa das lentes de contacto, o liquido para limpar as lentes de contacto, as pastilhas para desincrustar, ou em vez das lentes, dois óculos, uns para a miopia outros para a hipermetropia e as respectivas caixinhas. Podia ter que levar ampolas para a queda do cabelo que se esfregam na cabeça, meia hora antes de lavar, um liquido que se coloca no buço que inibe o crescimento do pêlo. Aplicador para as espinhas da cara,creme anti-manchas-idade, creme endurecedor para o busto, creme anti-celulitico para as nádegas, creme anti-envelhecimento para as mãos. Para a boca: pomada para as feridas da prótese, líquido para limpar a dentadura e o respectivo recipiente para a pôr a repousar durante a noite, no lavatório ou na mesinha de cabeceira. Creme para os fungos dos pés e pomada para as hemorróides. Mas não preciso de nada disto. Ainda não.
de pessoas que lêm nas entrelinhas.que de uma palavra fazem juizos e os ditam como verdades universais. não sei se é este clima de crise que lhes afecta o cérebro, mas revela-se cada vez mais esta gente no meu quotidiano, e eu não gosto. estes detectores humanos da conspiração, com quem convivo diáriamente, não se apercebem que amputam parte de mim.roubam-me a inocência. estava tão sossegada e feliz com a minha ignorância, quando, zás, sou apanhada por uma novidade, uma maldita sabedoria a que não aspirava. uma revelação, um raio de realidade que cai na minha cabeça. um foco impiedoso que me diz, que o que antigamente para mim era uma paisagem, não é mais do que um cenário onde vivo.
quase me levam à auto-punição por tanta estupidez e cegueira.
Para o bem e para o mal, nunca mais olharei para estes teóricos da conspiração, com os mesmos olhos.
quando parada no meio do trânsito ou na fila do caixa de um supermercado, encontro-me mergulhada em pensamentos absurdos. Penso que somos biliões de microorganismos,tão pequenos que não nos conseguem ver a olho nu. que partilhamos o espaço com gigantes. para eles não somos mais que corpos peludos com 4 patas, de aspecto horroroso e rosto extraterrestre.
À noite quando me deito ouço o respirar dos gigantes, e eles também nos ouvem, somos estalidos, cricris ruidosos e passos pequeninos. Habitamos a pele do gigante, as árvores são megapêlos. a chuva é o o seu espirro, o mar a sua imensa bexiga, e o sol o seu coração. quando chora são os trovões que ouvimos, quando se zanga, são os raios de uma tempestade. e assim por esse corpo nos andamos a mexer, para lá e para cá. e assim nós a quem nos chamamos humanos, ignoramos que o nosso universo não é mais que um corpo com vida de um megagigante.
Tendo em conta que o mundo está cheio de vidas, entre bactérias,micróbios, ácaros e outros organismos, porque é que os humanos se sentem tão sós?
Porque tenho ouvido dizer que a velhice é um estado de solidão.
Parir.
- "(...) e não queres mais filhos?"
- "hum...tive um problema de saúde e não posso."
- " oh que pena."
minto.
porque a primeira vez que disse "não", disseram que estava a ser egoísta, que ele tem o direito de ter filhos (isso eu também acho),e até, que corro o risco de a relação acabar.
curioso, porque as que conheço acabaram depois de chegar o filho.
O passo habitual que costumam dar os homens e as mulheres, os cavalos e as éguas, os bois e as vacas, a formiguinha e o formiguinho, a mim não me apetece.
Esta situação da relação sem filhos torna-se estranha. principalmente num jantar de família quando a minha filha diz à boca cheia, "mas tu não queres mais filhos". mudo imediatamente de assunto, pisco o olho ao meu parceiro, que esboça um sorriso cúmplice ,bebo um golo de vinho tinto e o jantar continua. afinal nós não queremos filhos, ficou esclarecido no inicio desta relação. Nós contrariamos a idéia pré-concebida que um homem e uma mulher juntam-se pela e para a maternidade.
Em tempos fui mãe. pari alguém no seio de uma família ávida de um rebento.
Como todos os seres do mundo que se esforçam por parir, desovar, pôr, chocar, criar, eu com quase 30 anos, tive uma filha.
Fui mãe sem eu própria ter sido filha.
e por isto digo muitas vezes a mim mesma,que eu não nasci para ser mãe. como posso ser mãe se nunca fui filha? como hei-de compreender a minha filha se nunca passei pelo processo ? eu queria ter sido filha, filha para sempre, até ao fim, mesmo velhinha, septuagenária e decrépita, apenas filha.
"nunca em 40 anos, aqui se cantou um espiritual negro, aliás nem deve estar nos estatutos !"
e só me apetece perguntar: porquê ? os negros cantam para um Deus diferente, é?!
e depois desta, vou procurar um coro de gospel, pois não devem ser dados a tanta honra e consideração.
Foto by Ortlinde (Champs Elysees, 2010)
La plus belle avenue du monde!
Paris me manque...
(Hoje fui ao albúm das viagens)
Curiosamente, esta semana desafiaram-me, subtilmente, a ressuscitar Brunhild. Fiz de conta que não percebi... Onde já se viu ressuscitar Brunhild no Natal!? Esta coisa do corte nos feriados deixou os pessoal trocado.
Mas hoje - há poucos minutos, para ser mais precisa - vejo a entrada de dois textos d' A Cavalgada no GReader: surpresa!
Voltar a escrever, que grande desafio!
Tal como a Ort, nada prometo, a não ser tentar.
Volta e meia, nas longas idas e nas longas vindas do trabalho, dou por mim a pensar isto dava um texto para o blogue (existem hábitos que nunca se perdem...).
Toda a gente sabe que a era do blogues já passou. Mas, como fama, nunca foi o objectivo, é isso que proponho: tentar voltar ou voltar a tentar. Mas só de vez em quando, que a paciência - e a disponibilidade - para enfrentar o computador fora do local de trabalho é cada vez menor.
Ah! Eu tento, mas, e mais uma vez, tal como a Ort, escrever à novo acordo ortográfico é coisa pouco consistente, ainda.
eu - amanhã podias passar na Ginoeco e levantar o resultado do raio X
ele - está bem, pode ser às 18h30?
eu - pode
No dia seguinte mensagem no meu telemóvel às 18h40:
"já fui à gino-cenas "
Posso...? não recebi a ordem de despejo e atrevi-me a entrar. Tenho saudades de andar por aqui, de ler os textos da Brunhild, de escrever coisas, ando numa fase estúpida, por isso os textos vão ser um pouco...,estúpidos.
Apetece-me cantar o "Frágil" do Jorge... faz-me um sinal qualquer se me vires falar de mais, eu às vezes embarco em conversas banais" e o resto da letra?! raios que não consigo decorar mais de duas frases seguidas! Mas não foi uma conversa banal que me fez voltar aqui, foi alguém que me disse que teve um blog e que ao mudar a imagem, puf! apagou! um blog de sete anos, fez tudo para recuperar mas não conseguiu. Então falava-me das saudades de escrever, dos comentários, dos amigos que fez , das pessoas que conheceu por causa do "Cristal" ou "Só Cristal"?, não lembro... amanhã pergunto-lhe. E fez com que eu lembrasse de uns meses atrás, de como me divertia a escrever aqui. Da Brunhild, da minha querida Brunhild, que aqui ganhei. Uma amizade curiosa, que não precisa de estar sempre, mas que sinto que sempre está. O presente que me deste ?! ainda não chegou a casa, está a trabalhar o que faz muito bem,porque o anel de diamante não se compra assim com duas tretas. A boa noticia, - para mim, porque pra quem lê não sei se será assim tão boa -, é que eu estou com vontade de andar por aqui. Ah! aviso já que não escrevo à novo acordo ortográfico, é estranho e não se me entranha. E prontus, vou tentar escrever um textozinho estúpido uma vez por semana. eu disse tentar.
E sobre a crise, lembro uma frase de F.Scott Fitzgerald:
"assim vamos teimando, proas contra a corrente, incessantemente cortando as águas, a caminho do passado que não volta"
Aos primeiros trinados da guitarra portuguesa, pele de galinha. Uns quantos fados à frente e as letras começam a surgir. Mas, de onde? Da infância. Dos fins-de-semana passados a ouvir Amália em cassete, durante a limpeza à casa, na avó, interrompida pela ida ao cemitério. Das noites de fados, que surgiam naturalmente, em família. Alguns à desgarrada, outros cantados com lágrimas a escorrer cara abaixo. Revivi e partilhei. E só quando reparei nos olhos admirados que me fitavam, reparei no meu estado enquanto relatava estas estórias. Não é frequente falar de mim ou contar estórias minhas, daí a admiração. Mesmo minha. Sei que tornei as pessoas minhas quando me revelo assim. Só não sei foi a noite de fados que me atirou para este estado, se só o potenciou. E dou por mim a pensar, tal como António Lobo Antunes, no que fizeram ao meu País... Sacanas!
"Mandar-lhe-ei o meu retrato. Quer? Mas até lá, e para prevenir a hipótese do meu rosto a enganar, vou descrever-lhe desde já o meu péssimo carácter: sou triste, imensamente triste, duma tristeza amarga e doentia que a mim própria me faz rir às vezes. É só disto que eu rio, e aqui tem já V. Ex.a no meu carácter uma sombra negra, enorme, medonha: a hipocrisia!... Porque eu pareço alegre e toda a gente gaba a minha... alegria! Estou já a vê-la, num gestozinho de enfado, amarrotar, irritada, a minha carta, com um vago sentimento de arrependimento por querer conhecer uma criatura assim tão mal dotada. Mas ainda este é o primeiro defeito; o segundo, e para o mundo virtuoso e prático é simplesmente horrível, é o sonhar, sonhar muito, olhar muito além, para longe de todos os que cantam, os que falam, os que riem!... Tenho dias em que todas as pessoas me dão a impressão de pequeninas figuras de papel sem expressão, sem vida."
Florbela Espanca, Correspondência
Nada que um chapéu enterrado fundo na cabeça, uns óculos de sol e uma longa caminhada em silêncio, ao frio e à chuva, por entre desconhecidos, possam ajudar a resolver.
Ninguém faz ideia do efeito que as palavras têm em mim. Se o soubessem, não me inundavam com estórias de outros, com problemas que não o são, com mentiras proferidas com a convicção de que diz a mais pura verdade, quando tudo o que preciso é que me deixem em paz, sozinha e em silêncio.
A trabalhar uma média de 11h por dia (e não me estou a queixar, entenda-se; bem pelo contrário...), o tempo livre tem que, a bem da sanidade mental, ser de qualidade. Ou seja, passado com quem gostamos, e nos quer bem, a fazer o que gostamos, e nos faz bem.
Jonathan, vamos? Oupa!, deita-te aqui ao meu lado e (en)canta.
E vim para casa pensar: em que tempo/espaço prefereria viver, se me fosse permitido escolher?...
Nova Iorque, nos anos 70, privando com Woody Allen!
Voilá!
Estou com medo de regressar a esta casa, pois parece que sempre que aqui volto, a minha vida desanda.
No entanto, no fim-de-semana que passou, tive a oportunidade de rever a minha família e de reencontrar Brunnhilde. Não sei se ela ainda mora aqui, mas apetece-me procurá-la. Apetece-me chamá-la, agora que as coisas parecem voltar, ainda que lentamente, ao lugar. Assim, arrume-se a casa!
E se, quando encarnei Brunhild, o fiz pelo caráter guerreiro da personagem (e pela historieta de amor, pois claro), ao rever, há dias, o ciclo d' O Anel do Nibelungo, a escolha, ainda que inconsciente, pareceu-me certeira em todos os sentidos, na medida em que se revelou ser mais profunda.
Sim, as injustiças continuam a revolver as entranhas e, pelo que acredito, sou capaz de lutar, enfrentar seja quem for e de levar, a decisão, até às últimas consequências.
Sim, queimo-me amiúde. E, ao contrário do que seria de esperar, dói sempre como se fosse a primeira queimadura.
Mas antes assim do que a alternativa: criar pele de sapo.
Desejem-me sorte (embora não acredite nela), e vamos lá regressar às cavalgadas!
Será que ainda me lembro como se faz?...