Voltaram a não me ligar da minha livraria, a dar-me uma resposta concreta se conseguiam o livro que encomendei ou não. Já estou a ver o filme... Vou passar lá esta semana, não vão ter o livro e eu vou acabar por comprar outro. Cá para mim, já descobriram a minha fraqueza.
Há tempos andei obcecada por Fernando Pessoa. Mas tive que parar. Estava a sentir-me sugada por ele. Não conseguia separar o poeta - a sua poesia, os seus heterónimos - da pessoa - da dor, da angustia, do sofrimento - e da necessidade que sentiu de desfragmentar a sua personalidade, de forma a sobreviver.
Foi, segundo li (e capaz de concordar), psicólogo de si mesmo. E isto, só terá sido possível, superando-se; Sendo mais inteligente do que a sua própria "loucura". (Conclusão de uma leiga, não me fuzilem.)
De qualquer forma, a sua genialidade nunca esteve em causa.
Siga.
Foi por esta altura que eu me apercebi, mais seriamente, da nossa pseudo-sensibilidade; Ou melhor, da insensibilidade de quem lê, do nosso vampirismo.
Lemos uma poema sobre a dor de outrém, sobre o desassossego, e aplaudimos, dizendo que é lindo.
É, de facto, muito bonito.
Há dias, Joana Amaral Dias (psicóloga clínica), publicou um livro, onde analisa os traços psicológicos de algumas figuras históricas, entre elas, voilá!, Fernando Pessoa.
Eu confesso que não nutro simpatia por Joana Amaral Dias. Das poucas intervenções dela a que assisti (porque não consigo), achei-a empertigadasinha e até petulante. Dou-lhe, no entanto, o benefício da dúvida (como se ela precisasse dela), podendo ser aquela postura, mera fachada. Nos meandros em que ela circula não deve ser fácil ser-se tomada a sério. Esta sociedade aberta, pós-moderna, não vê com bons olhos as mulheres inteligentes. Competentes, sim. Inteligentes, nem por isso. Principalmente se, aos dois dedos de testa, cumular dois palmos de cara. E eu concordo. Não é justo.
Contudo também não tenho grandes certezas da superioridade do seu QI. E isso é importante? Claro que não. Pelo menos, para ela.
O livro intitula-se Maníacos de Qualidade. E o meio feitiosinho embirra com ele por todos os motivos e mais algum. Não só com o título mas com o livrinho em si.
Duvido seriamente do acto altruísta de JAD (é modinha! é modinha!) de, finalmente, diagnosticar os males destas figuras históricas, e lhes proporcionar o eterno, e merecido, descanso. E duvido também da qualidade dos seus diagnósticos.
No entanto, curiosa como sou, sinto-me tentada a ler as 54 páginas dedicadas a Pessoa.
Portanto, se eu sair da livraria com este livro na algibeira, prometem que não me chamam traidora?...