Sábado, 20 de Fevereiro de 2010

- Estás com os olhos tão fundos, rapariga.

 

 

 

Cumpri todos os rituais e compromissos sociais, meus e dos outros, como menina bonita que sou.

E, quando todos se preparam para voltar às suas vidas, eu começo a lutar, novamente, pela minha.

É sempre assim. Demoro muito tempo a sentir. Outro tanto para saber o que sinto. E ainda outro para conseguir exprimi-lo.

Acho que as minhas sinapses estão gastas. Lentas. Cansadas.

 

Quando me apeteceu chorar, não me deixaram. Prenderam-me em conversas que já esqueci. Delas só ficaram Tens que ser forte.

Continuo sem perceber onde foram buscar esta ideia de que sou forte.

Se fosse, de facto, forte, ter-me-ia recusado a ir e a compactuar com rituais ocos. Teria ficado em casa, orgulhosamente só. Como me apetecia.

Mas fui. Não para vender a ideia de família feliz e unida, que somos, mas porque sabia que a minha presença era imprescindível para uns.

Se fosse forte, teria gritado que me deixassem em paz quando me perguntavam pelo meu emprego, pela minha casa, pelo namorado e pelos filhos que não tenho e pela vida daquela tua amiga com quem andavas sempre.

Mas não gritei.

Porque sou fraca.

Mas não tão frágil quanto me idealizam.

Se fosse, de facto, frágil, ter-me-ia desfeito em lágrimas, à frente de toda a gente. Como me apetecia.

Mas não chorei.

Eu não consigo sentir quando sinto olhos postos em mim.

Quando o fiz, escondi-me. Primeiro no ombro do meu irmão. E depois no ombro do meu pai.

 

Agora, finalmente, posso sentir. Mas não quero. Não consigo.

É esta dor, de quem ainda tão bem me lembro: da perda.

Da sua falta, que começo a sentir. Do meu habitual Olá! que bate na porta, agora sempre encostada. Das 21h30 e as 22h30, que eram sempre horas dela. Da sua voz, que irritava de incessantemente chamar, mas que agora não chama.

E, à sua falta, adiciono as minhas: apetite e sono.

 

 

Não toquem, não mexam, não abracem, não falem, não fixem os olhos em mim. Está tudo em ferida.

Nem me perguntem como estou. E, principalmente, não esperem uma resposta verdadeira. Eu só conheço uma resposta para essa pergunta: Estou bem.

 

Eu fico bem.

 

Mas tremo.

Tremo pelos que ainda vou perder, a partir de agora.

Tremo porque, por muitas pessoas que tenhamos na nossa vida, todos morremos sozinhos.

E temo.

Temo não suportar. Acho que não sobrevivo a eles. Tenho a certeza. 

 

Contrariando este frio que ameaça instalar-se e entranhar-se, agarro-me a tudo que possa produzir um bocadinho de calor: ao que acredito e defendo, amor; e até ao que não acredito, sonhos; ao que me faz bem, perserverança; Ao que me faz feliz, momentos; Ao que me aquece, sol; A quem conto sempre, mim.

 

Desculpem, mas tem de ser à minha maneira. É a única que conheço.

 

Eu volto assim que for possível, braços abertos à vida e a todos aqueles que são meus, pronta a cuidar.

Mas, por enquanto, preciso cuidar de mim.



publicado por Brunhild às 22:51 | link do post | comentar

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