Quarta-feira, 21 de Abril de 2010

* Inspirado no filme Le Mépris, de Jean-Luc Godard (que por sua vez foi baseado no livro O Desprezo de Alberto Moravia) e num ou outro facto real.

 

 

 

Gostava de estar com ele. Gostava principalmente dos seus silêncios após algumas das respostas dela. Como se fizesse uma pausa para as perceber. Como se a escutasse. Como se o que ela dissesse fosse importante para ele. Como se a tentasse descobrir. Como se a tentasse perceber.

Ainda não tinha testado se ele de facto a escutava. Talvez o fizesse em breve. Talvez não o fizesse, desta vez. Estava cansada de tantas desilusões. Não a queria provocar. Mas estava certa de que ela chegaria. Desta vez queria prolongar a ilusão o mais que pudesse. Porque gostava de estar com ele. E isso, para ela, era suficiente.

 

Ia estar com ele naquela noite. E o relógio lutou contra isso o dia todo. Que desespero. Mas finalmente chegara a hora.

Tinha pensado em tudo, até ao mais pequeno pormenor. Era um dia especial. Tinha decidido que iria, por fim baixar a guarda, abandonar a evasivas e deixar que ele a visse, tal como é. E, como tal, não queria nada menos do que a perfeição.

Usaria as confortáveis calças de ganga, as preferidas, aquelas largas com bolsos de lado; as sapatilhas azuis; a t-shirt cor-de-rosa, nova; e o casaquinho de malha castanho, a condizer com a barra castanha das sapatilhas. O relógio beije; a pulseira das bolas pequeninas bem românticas, em tons rosa; os brincos discretos, também rosa. No cabelo, a pequena flor cor-de-rosa.

Castanho, tom terra, os pés assentes no chão. E rosa, a cor dos sonhos. Combinação perfeita.

Zero de maquilhagem.

Não existia look que mais se parecesse com ela. Aquela era ela.

 

À hora, partiu para o local do encontro. Queria chegar a horas. Sabia que ele não gostava de atrasos. E valia tudo para o agradar.

 

Apesar de estar voltada de costas para a entrada, sabia que ele acabava de entrar. Visualizou-o, mentalmente, a dirigir-se a ela, mas continuou de costas viradas.

A tentação de se virar, correr para ele e cair nos seus braços, era muito grande. E só acalmou quando sentiu a sua respiração. Parou. Iria dizer-lhe qualquer coisa ao ouvido. Acertou. “Chegaste a horas…”.

Quando se virou, encarou o seu tímido sorriso, atraiçoado pelos olhos brilhantes. Conhecia poucos homens que permitissem os seus olhos brilharem. Adorava isso, nele. Um diria, iria dizer-lhe. Decidiu isso, ali, naquele momento.

Por outro lado, ela ainda não permitia que os seus olhos brilhassem livremente. Excepção feita, quando ele era brilhante. Mas aí, não tinha como evitar.

Ficaram por ali cerca de vinte minutos, a escolher o filme que iriam ver. Vinte minutos bem gastos entre sorrisos, abraços, pequenas provocações, abraços, olhares. Tudo, menos escolher o filme.

 

...

 

No fim-de-semana seguinte, encontraram-se, por acaso, à noite. Em aniversários diferentes, no mesmo sítio. A surpresa foi tanta, e tão boa, que não houve auto-controlo, capaz de travar o entusiasmo. Até serem proferidas as primeiras palavras, dele: “Quando vens ter comigo não te arranjas assim…”.

Ela, demasiado feliz para se sentir triste, sorriu. Mas ele não percebia.

 

...

 

Uns dias depois, repetiram o ritual. “Às 21h, no sítio do costume. Vou arranjar-me para ti e ainda chegar a horas. Beijo”

Valia tudo para o agradar. E teve a certeza de que tinha sido bem sucedida na sua escolha quando ele a mirou, satisfeito, de cima a baixo.

 

Passeou, orgulhoso, com ela. Sem deixar, contudo, de olhar, discretamente, para as outras mulheres de saltos altos que por ali passavam.

Ela continuava demasiado feliz para se sentir triste.

De tão orgulhoso que se sentia, evitou apresentá-la a conhecidos. Era dele. Só dele. E tanto mais orgulhoso se sentia quantos olhares os homens que por ali passavam dirigiam àquela mulher com quem ele passeava

No entanto, algo mudava. E, nessa noite, as evasivas voltaram.

 

Às evasivas, cada vez mais frequentes, sucedeu-se o silêncio. Silêncio que se transformou num fosso, num vazio, em ausência, na pior das solidões, a acompanhada.

Os primeiros “Estás diferentes. O que é que se passa?” ainda escaparam impunemente à laia de um alegado cansaço. Mas os seguintes tornaram-se ensurdecedores.

Cansaço que se entranhou até à indiferença se instalar.

Era, então, chegada a altura de partir.

 

Ele não percebia. E ela não lhe soube explicar. Mas talvez ele merecesse saber.

Alguém lhe diga, então, que, nela, o amor chega despido, nu, simples, natural, sem artifícios. Esta é única forma que ela sabe amar. As outras, desconhece. Tal como desconhece as suas razões. E é assim que quer continuar a ser. E a amar.



publicado por Brunhild às 19:00 | link do post | comentar

mais sobre mim
cavalgadas recentes

Álbum: raízes

hold on to your dream

O efeito Gabriela

Cindafuckin'rella, precis...

Sonata de Outono

Olá!

...

paradoxos, incongruências...

espreitar

não gosto

ás vezes

O supremo verbo da humani...

as coisas que eu ouço

e esse Natal, como foi ?

Albúm de fotografias

reencarnação deferida

retratos da vida a 2

Toc Toc ?

leva-me aos fados

in a dark place #1

comentários recentes
A perda não foi minha. Esta, pelo menos. Mas um di...
Vive-se segurando a dor na dor dos outros. Tentand...
ah pois é! :)
ahhhh... a bela juventude!!! :P
e tu achas que eu não penso nisso? tenho mais medo...
porque alguém - Walt Disney?! - nos disse que para...
a ver por algumas parideiras que por aí e por aqui...
sim, se assim não fosse a humanidade não existia. ...
Maria, obrigada por leres o nosso blog. Beijinhos
Qual é o supremo verbo da humanidade, parir?!...Se...
outras cavalgadas
cavalgadas arquivadas
subscrever feeds