Ofereceram-me uma flor. Eu sorri. Mas fiquei a olhar para aquela coisa, já na minha mão, sem saber o que lhe fazer. Ia ter que andar com aquilo na mão a noite toda? E como é que dançava? E como é que fumava e bebia ao mesmo tempo?
Apelidaram-me logo de esquisita. Qual é a mulher que não gosta de receber flores? Pelos vistos, eu!
Flores, tal como os voucher da Fnac, é a aposta segura de quem não está para se esforçar e pensar no que há-de oferecer. De quem não está para observar, escutar, conhecer, descobrir, o que o outro gosta. De quem não está para se sacrificar e fazer o que não gosta ou aprecia fazer mesmo que seja algo que o outro gosta ou aprecia fazer. De quem não sabe distinguir o que é importante, essencial, do que é acessório para a outra pessoa. De quem não faz ideia quem é a pessoa que está à sua frente.
É a surpresa de quem fez asneira e tenta comprar o perdão.
Um acto que, de tão banalizado, se tornou vazio.
E por que razão haveria eu de me surpreender por ainda haver tanta gente a oferecer e a gostar de receber flores?
Numa sociedade em que o velhinho que mora ao lado morreu em casa há meses sem que alguém se desse ao trabalho de arrombar a porta, por que razão as floristas (e os indianos) não haveriam de passar ao lado da crise?
Mas não me entendam mal, eu gosto de flores. Não gosto de coisas sem significado, de actos vazios ou forçados.
Preferia que, quando me quisessem surpreender, não me as oferecessem, ou pior, que as mandessem entregar; Preferia que, por exemplo, me convidassem/levassem a ver e a cheirar as flores no seu habitat natural: num jardim.