Segunda-feira, 24 de Agosto de 2009

- não obrigada...agradeço...já tenho compromisso...eu sei...claro...foi pena não terem falado mais cedo...pois...ãh? tens que ir ? adeus.Sim claro...adeus.

 

Menti. Minto sempre. Eu sou uma mentira. Este convite foi uma mentira! Têm pena de mim porque estou assim. Por isso menti.  Mas eu não sou como aquelas pessoas que acabam por acreditar nas suas próprias mentiras, eu minto deliberadamente. Às vezes dou por mim a sorrir quando acreditam nas minhas histórias. Estou a ficar boa nisto. Queriam que eu fosse para a esplanada. Não tenho nada para fazer, como sempre, mas disse que não podia. Eu até gosto de esplanadas, não me consigo abstrair das conversas dos outros, gosto de saber o que se passa, já que comigo nada se passa. Não consigo deixar de olhar para as outras mulheres, tirar medidas, tentar adivinhar o preço das saias, camisolas, calçados, se são casadas ou solteiras, se são felizes ou não. São todas felizes, essas putas, todas menos eu! Mas não gosto do sol a bater-me na cara. O calor provoca-me mau estar, sinto o suor  e os braços a colar no corpo e cheiro mal. As mesas perto da minha estão vazias, as pessoas puxam as cadeiras sentam e tornam a levantar. São narizes finos. Cheiro mal porque há uma semana não tomo banho. Estou enfiada em casa, as portadas corridas, a televisão ligada e embalagens de telepizza por todo o lado. Ontem tocaram à campainha, fingi que não estava em casa. Tenho vestida uma camisa tão encardida que já rompe ao mais pequeno puxão. Não quero dar satisfações da minha vida,não me apetece falar com ninguém, também ninguém me resta, estou esquecida. Sinto um dente da frente a abanar, qualquer dia fico sem os dentes, já tenho madeixas de cabelo a cair, por isso não me penteio. Não quero saber. Nunca foi bonito o meu cabelo. Fraquinho oleoso e sem brilho. Sou um nojo. Sinto-me enjoada. Acho que vou vomitar. Pronto, corri até à sanita, mas bati no armário do corredor e vomitei no tapete. O gato faz o resto, já não me lembro de lhe comprar comida, dou-lhe restos, quando ele acabar de comer o vomitado deito o tapete ao lixo.

Durante o dia durmo, estou desempregada. Já tive um bom emprego, fui despedida por justa causa, faltas injustificadas, disseram eles. Não acreditavam que eu estava doente. Fui a uma consulta e a médica deu-me uma dieta e fazer exercicio fisico e disse que era tudo psicológico, mas eu não conseguia sair da cama de manhã, tonturas e enjoos. E à noite não durmo e espero ansiosamente que os vizinhos se deitem.  Ocuparam o apartamento do prédio em frente há pouco tempo, não têm cortinas e vejo tudo. Gosto de os espiar. Gosto de a ver despir-se. È verão está calor e eles fazem sexo pelo quarto. Acho que fico excitada porque sinto a cara arder, a respiração pesada e o coração acelarado. Acho que os ouço gemer e então toco-me. Não sinto nada a não ser as minhas coxas húmidas, mas prazer, nada. Uma vez saí de casa e fui à mercearia da esquina. Estava com vontade.  Em tempos apanhei o merceeiro a olhar-me para as mamas enquanto mordia os lábios. Fui lá com a desculpa de comprar açucar. Gosto de pão com manteiga e açucar. Já não me olhou como antes. Perguntei-lhe se queria ver as minhas mamas. Olhou-me incrédulo, abriu a porta das trazeiras e segui-o. Abri a blusa e esfregou a cara com tanta força que me deixou toda babada de saliva. Virou-me de costas para ele, levantou-me a saia puxou-me as cuecas para o lado e esteve ali algum tempo. Gritou qualquer coisa que não percebi e aquilo escorria-me pelas coxas. Quando me virei ele apertava o fecho das calças. Não tive prazer, não tive nada. Continuo sem saber se ainda sou virgem, dizem que dói. Eu não senti nada. O velho ajeitou  as repas tapou a careca abriu a porta deu-me o açucar, sorriu e disse que era oferta da casa.

 

Tenho 25 anos e estou a morrer. Minto. Deixo-me morrer. Estou enorme . Agora nem à mercearia vou porque a porta da rua está demasiado estreita. Há dois anos telefonaram-me para ir a uma esplanada. Só não fui porque as cadeiras têm braços e ninguém se lembrou.

 

 



publicado por Ortlinde às 17:18 | link do post | comentar

6 comentários:
De Brunhild a 24 de Agosto de 2009 às 18:22
Oops, peço desculpa, enganei-me no blogue...


De Brunhild a 24 de Agosto de 2009 às 18:25
Não, esperem lá, é mesmo este o endereço... Mas o que se passa aqui?!

Também andas a ler "Os meus sentimentos" de Dulce Cardoso!?

Credo! Isto não é uma sombra, é uma nuvem, negra, muito carregada... Pesada!


De Ortlinde a 24 de Agosto de 2009 às 18:29
kafka?


De Brunhild a 24 de Agosto de 2009 às 18:39
Bom texto, Ort! ;)


De Ortlinde a 24 de Agosto de 2009 às 18:41
Ufa! kassusto! pensei que ia ser despedida!


De Brunhild a 24 de Agosto de 2009 às 18:48
Era justo que eu escrevesse um sobre uma gaja que era tão magra, tão magra, que quando a convidavam para ir à praia, tinha que verificar se estava vento...


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