Sábado, 17 de Janeiro de 2009

Sempre fui uma gaja paranóica!



Durante anos a fio, sofri em silêncio, acreditando que era adoptada. Apesar de ser a cara chapada do meu pai. Paranóia que se acentuou com o nascimento do meu irmão, quando as atenções que eram só minhas passaram a ser divididas pelos dois.


Foi por essa altura que eu rebentei e lhes fiz saber que estava a par de toda a verdade.


E, mesmo depois de me garantirem que não era verdade e de me mostrarem os testes de ADN, durante anos fiquei sempre de pé atrás, à cuca. Eu não sou parva. Sei perfeitamente que os testes de ADN são facilmente forjados. Estou fartinha de ver isso acontecer nas telenovelas.



Hoje sei que não sou adoptada. Aliás tenho a certeza disso. Sei que sou filha deles. Eu sinto que sou! Não há teste de ADN que prove isso.



No entanto, aqui há tempos, escutei atrás da porta, uma conversa deveras estranha acerca o meu parto. Sobre ter ficado na incubadora e de uns "problemas à nascença".



Andei a matutar no assunto durante dias, até que finalmente resolvi o enigma: sofri um transplante à nascença! Sei com toda a certeza deste mundo que, ou me foi transplantado o cérebro, ou me foi transplantado o coração, ou ambos.


Como sei? Porque eles são incompatíveis! Eles rejeitam-se um ao outro! Vivem num permanente braço-de-ferro.



E até imagino de onde vieram.



O meu cérebro, provavelmente, veio de uma

cold bitch

com sucesso, executiva de uma reconhecida empresa qualquer do sector financeiro. Sempre firme e segura em cima dos seus stilettos de 15 cm. Racional, implacável, impiedosa, acutilante, manipuladora, persistente, conseguindo sempre tudo o que quer. Penso que terá morrido num despiste de automóvel, quando conduzia em acentuadíssimo excesso de velocidade, atazanava a vida da

personal assistant

ao telemóvel e retocava a maquilhagem.



O meu pobre coração, provavelmente, veio de uma criança órfã. Não sei se os pais a terão abandonado à nascença ou morrido num acidente de carro. É uma criança carente, vive em silêncio, incapaz de pedir que a amem, guarda com carinho tudo o que vai colhendo e lhe vão dando. Gosta de andar descalça e de vaguear pelas ruas da cidade, sem rumo, espreitando para a vida dos outros, aguardando que chegue a sua vez de ser feliz.


Penso que terá morrido atropelada por uma gaja que conduzia um carro para o qual não tinha unhas, em excesso de velocidade, enquanto passeava de cabeça na lua pelas ruas da cidade.



É nesta contradição que eu vivo a toda a hora.


Eu sempre pensei que o problema fosse meu, mas é com alívio que chego à conclusão que afinal tudo não passou de um enorme erro clínico.



Mas sei que, agora que descobri a verdade, anseio pela hora de poder confrontar os meus pais por me terem escondido isto a vida toda. Mas, antes, quero arranjar provas. E já sei como. Vou assaltar a Maternidade onde nasci. Vou esperar pela noite de mudança da lua e vou lá sacar o meu historial clínico.


Depois de confrontar os papás, vou aproveitar para fazer chantagem emocional e esperar que me compensem, financeiramente. Vou investir o dinheiro num advogado e fazê-lo processar o Estado, por este erro.


Com o dinheiro da indemnização, vou percorrer o mundo, à caça das melhores bruxas, videntes, cartomantes e afins. Vou pedir, encarecidamente e pago a peso de ouro, que me digam quando é que este tormento terá fim. Quero que me digam, quando poderei encostar a minha cabeça no ombro de alguém e, por fim, descansar.


Quero que me digam o dia ao certo. Dia e hora, se possível. Ou então, que me digam de uma vez que nunca terá fim. Pelo menos assim, deixarei de viver nesta ansiedade e inquietação, acordando todos os dias a pensar "será hoje?".



publicado por Brunhild às 13:12 | link do post | comentar

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