Quarta-feira, 18 de Novembro de 2009

Além das parecenças físicas, herdei do meu pai, algo que, para mal dos meus pecados, não abona muito a meu favor como gaja, o geekismo. Ou seja, um tremendo fascínio por gadgets. Não só pelos aparelhinhos em si mas, principalmente, por saber como funcionam.

 

No outro dia, o meu pai comprou um GPS. Pela net. Estava baratinho, disse ele. Qual o meu espanto quando um dia chego a casa deles e está o GPS praticamente todo desmontado. Peças por todo o lado! Era para saber como funcionava., respondeu, Sabes como é? Andei a ler na net, isto aqui transmite blablabla... Enquanto ele explicava como funcionava, eu fazia, mentalmente, uma analogia: é isso que eu faço com as pessoas. Desmonto-as, com muito cuidado, peça por peça, até chegar à sua essência e saber como funcionam. Ou não fossem as pessoas o mais genial dos gadgets.

 

Tal como os gadgets, há pessoas mais simples e pessoas mais complexas.

Há pessoas que, mal se abrem (salvo seja!), vê-se imediatamente que não há nada de transcendente nelas. Um design muito bonitinho mas, por dentro, pouco ou nada. Há outras que surpreendem pela sua simplicidade. Outras que, apesar de simples, são essenciais. Outras que primam pela cor que dão à nossa vida. E outras há, de uma complexidade tal, que mesmo desmontando, não se consegue perceber como funcionam.

Há umas que dão o berro facilmente. Há algumas que só berram. Há algumas que duram uma vida, como novas, tal é a qualidade de excelência. E estas são óptimos negócios. Há que mantê-las.

Enfim, uma panóplia de pessoas, ou gadgets, intermináveis. Para todos os gostos e feitios.

 

No entanto, desenganem-se aqueles que pensam que as pessoas, ou os gadgets, estão aí para nos facilitar a vida. Na verdade, muitas das vezes, estão aí para nos consumir, o tempo ou o dinheiro, respectivamente.

 

Não pensem que o dedico tanto tempo a desmontar pessoas, e gadgets, para melhor as/os saber utilizar. Para isso, bastava-me ler o livrinho das instruções.

Faço-o por curiosidade, por ter uma mente inquieta, mas principalmente para saber de que forma as posso ajudar e/ou melhorar, se for o caso. Considerem um hobbie para quem tem muito tempo desocupado e pouco com que se preocupar.

 

Na verdade, como me disse a Ort há tempos, Tu tens muito para dar. E tenho! Não à ciência mas às pessoas. Dou pelo prazer de dar, sem esperar nada em troca. Dou porque quero. Dou porque gosto. Dou porque preciso. A minha forma de precisar das pessoas é de que estas precisem de mim. No entanto, sem precisar delas. Confuso?! Imaginem para mim.

E este é o maior segredo sobre mim que eu poderia algum dia revelar. Esta é a razão pela qual me escondo e me protejo tanto. Imaginem esta informação cair em mãos erradas...

 

Felizmente, ou infelizmente, apesar de geek, pouco tenho de parva. E aprendi, às minhas custas, duras!, a distinguir quando de facto as pessoas precisam de mim, de afecto e atenção, ou quando se preparam para me usar a seu belo prazer. É que, apesar do ar de bonequinha, não tenho feitio para marioneta.

 

Contudo, que ninguém duvide da minha capacidade de amar. E herdei, também do meu pai, o gosto pela ópera, pelo lirismo. Sou capaz dos maiores actos, por amor, por gostar, por altruísmo. Curiosamente, uma característica do meu signo. Sabendo, à partida, que isso vale o que vale.

E qual é o acto supremo do altruísta? Morrer por amor?! Não! Morrer por amor é só dramático. É abandonar a pessoa que se ama, por amor. Por, qual Maria Madalena, não saber como amá-lo. Por tudo ter tentado e nada ter resultado. Por desesperança. Por estar convencida que lhe fazemos mais mal do que bem.

 

O senão deste hobbie, de desmontar pessoas, ou gadgets, é que é preciso muita atenção enquanto se desmonta. Saber de onde se retira cada peça e como é que ela interage com as outras. E uma boa memória, para poder construir depois. Ou seja, nunca se pode perder de vista o todo. Caso contrário, corremos sérios riscos de ficar com uma pessoa, ou um gadget, avariado nas mãos. Aliás, como aconteceu ao meu pai, que desmontou o GPS e, quando o voltou a montar, este não funcionava.

E se, com os gadgtes, há por norma uma garantia e/ou uma fábrica de origem onde podemos mandar reparar o dito. Com pessoas, o caso não é tão simples ou de tão fácil solução.

Podemos, no entanto, e sem garantias, tentar um reboot. Ou, por outras palavras, como alguém que esquece muitas vezes que me conhece, disse um dia, há sempre uma hipótese de fazer tudo de novo, de corrigir, de pedir desculpa ou dizer amo-te, sem ser tarde de mais.



publicado por Brunhild às 09:38 | link do post | comentar

1 comentário:
De Ortlinde a 18 de Novembro de 2009 às 12:06
muito bom! frases fantásticas " há umas que dão o berro, outras que só berram" . O ultimo parágrafo foi o que mais gostei.


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